Jaya e o segredo de Pala


Página inicial

O Universo da Solidariedade Galáctica


 

Capítulo 1

 

Uma notícia extraordinária interrompeu a programação: o presidente de Pala, quando já partia de sua visita ao Brasil para buscar apoio para seu plano de paz no Oriente Médio, havia sido seqüestrado. Um bando de mascarados, armados com bazucas e metralhadoras pesadas, cercou a comitiva que voltava ao aeroporto, matou vários seguranças e levou o presidente Kalevala para destino desconhecido.

O secretário da Segurança garantia que faria o necessário para resolver o caso, mas era visível que estava completamente desnorteado. Segundo o repórter, a polícia havia recebido um telefonema, minutos após o seqüestro, avisando que o presidente estava em seu poder e em breve voltariam a ligar para negociar o resgate. Os policiais acreditavam que se tratava de bandidos comuns sem motivos políticos. Possivelmente traficantes atrás de dinheiro. O suspeito era Josias Doido, suposto chefão do tráfico na zona norte.

Era quase tudo o que Jaya sabia. Só mais uma coisa: os serviços de informação da Terra 1 a haviam prevenido de que aquele homem era particularmente importante para o futuro da Terra 2. Pala era uma pequena república, à qual só as reservas de petróleo davam certa importância, mas o prestígio de Kalevala e sua dedicação ao bem-estar de seu povo e à paz mundial eram uma das chaves da estabilidade internacional. Há poucas semanas, ele havia sido indicado para o Nobel da Paz pela bem-sucedida mediação na guerra entre Índia e Paquistão.

Por que não começar pela suposição da polícia? Jaya mandou Anael monitorar todas as freqüências de celular em busca de conversas que mencionassem Josias Doido ou Kalevala. No meio de muitos rebates falsos – havia muita gente conversando sobre esse caso que todas as tevês e emissoras comentavam  – finalmente surgiu uma pista: muitas transmissões mencionando Josias Doido partiam da favela no morro do Elefante.

Jaya pediu para Anael teletransportá-la para o pé do morro. Eram as dez da noite e quatro sujeitos guardavam a rua que dá para a favela de Uzi na mão. Parecia que o tal do Josias já estava esperando encrenca.

– O que você vai fazer? – perguntou o holograma de Anael, que flutuava perto de Jaya na sua forma favorita para participar de aventuras, a do Virtual Boy, por enquanto visível apenas para Jaya.

– Pedir licença e entrar, ora. Agora, fique quieto. Moço, dá licença de subir?

– Qualé, tchutchuca? Esta noite ninguém entra, ordem do chefe.

– Que pena. Boa noite, então.

Jaya programou mentalmente a mochila, abriu-a, sacou uma cápsula de gás sonífero e jogou-a no meio dos quatro. Bum!

Pensando que era uma granada, começaram a atirar a torto e a direito no meio da fumaceira, enquanto Jaya saltava por cima deles. Antes que se dessem conta disso, porém, já haviam mergulhado no mundo dos sonhos.

E Jaya subia aos saltos a ladeira, com Virtual Boy a seguindo em sua clássica pose Superman ® (marca registrada). Não era muito difícil adivinhar onde estava o chefe: em todas as casas, as pessoas apagaram a luz e se esconderam quando ouviram os tiros. Exceto numa.

Cinco ou seis caras saíam pela porta armados e parecendo assustados. Nada bom. Se houvesse tiroteio, balas perdidas podiam atingir inocentes. O que poderia ser mais eficaz que gás paralisante?

Ah! Jaya lembrou-se de algo que tinha visto no cinema.

– Mas como fazer isso sem ter sido mordida por uma aranha transgênica? Bem, preciso de um tubo com válvula, micro-bomba de pressão, misturador, sintetizador biônico de fibroína e sericina... Nanorobôs, trabalhem!

Quinze segundos e o lançador estava pronto para ser sacado da mochila, na forma de uma pistola cor-de-rosa.

– Apontar, disparar, fogo! Digo, teia!

– Ei, vamos brincar de homem-aranha? – disse Anael – Me deixa, então, trocar de uniforme!

Em uma fração de segundo o smoking branco e azul do Virtual Boy virou um colante azul e vermelho e seus óculos escuros viraram uma máscara aracnídea. Mas aquela meia dúzia de capangas já estava presa, grudada e devidamente apertada dentro da teia lançada por Jaya, sem conseguir mexer sequer um dedo para apertar o gatilho das submetralhadoras.

– Agora, abrir a porta e entrar. Mas antes, uma precauçãozinha. Mochila, já! Um mini-escudo de força, para usar no pulso.

– Vou na frente! – disse o agora Aranha boy.

Deu de cara com um sujeito magrinho, com cara de nervoso, ladeado por dois brutamontes, com cara de brutamontes. Atiraram no que parecia ser um moleque fantasiado, sem fazer perguntas. As primeiras balas atravessaram o holograma do menino-aranha, resvalaram no escudo de força de Jaya e se cravaram no chão.

As segundas não chegaram a sair dos canos, entupidos com a teia de aranha que saltou da pistola de Jaya. Mais dois segundos e também os dois estavam amarrados, grudados à parede e inconscientes, depois de uns petelecos bem dados no pescoço. Sobrou o magrelo, que só podia ser o tal do Josias.

– Você é o tal do Josias? – perguntou Jaya, depois de lhe amarrar as mãos e os pés com os canos dos dois fuzis.

– Qualé, musa? Todo esse auê porque maloquei uns trocados de uns manés e passei uns bagulhos pra galera? Libera aê, pô, na moral...

– Você sabe do que estou falando. Todas as tevês estão dizendo que você mandou seqüestrar o presidente Kalevala. Quero saber o que houve e por quê!

– Maior cascata, deusa! Foram uns alemães baludos que passaram aí, alopraram o pedaço e nóis levou a culpa porque os zome é tudo lóqui, estão por fora, não sabem de nada e culpam o primeiro mano que lembram o nome... Chaparam o coco, todos...

– O que você sabe dessa história, afinal?

– É o seguinte: chegaram uns gringos aí, armaram a maior cama de gato lá pro negoso e sentaram a mamona. Os manos que andam na rua é que sabem das coisas.

– Que gringos? Onde eles estão?

– Fala sério! Me chamo Josias Doido, não Zé Mané! Aquilo é profissa, tudo marombeiro, fera no gatilho e com umas bocas de ferro desse tamanho. Entrar nessas erradas é dar nó no sapato! Tretou com eles, ficou pequeno: abotoou o paletó de madeira! Só lamento! Prefiro ir pra gaiola!

– Não estou oferecendo essa opção.  Pra gaiola você vai mesmo e isso se contar tudo direitinho. E ninguém vai ficar sabendo o que você me disser. Mas se não contar tudo o que sabe vai...

– Acordar com a boca cheia de formiga! – completou o (de novo) Virtual Boy.

– Nada disso. Vai dormir sentado na antena do pico do Jaraguá.

– Tá bom, santa. Vou te por na fita, mas não me diga que não avisei. Essa treta é fita forte... Vacilou, dançou!

Minutos depois...

– Você ia mesmo pendurar ele na antena do Jaraguá? – disse Anael.

– Claro que não, era só para assustar. Se não desse certo, íamos ter de levá-lo à base para aplicar uma sonda mental, mas ia ser mais demorado...

As rádios da madrugada já estavam dizendo que o conhecido traficante Josias Doido e seu bando haviam sido presos graças a um telefonema anônimo, mas o meliante negava de pés juntos (o serralheiro ainda não havia conseguido cortar o cano) qualquer participação no caso Kalevala. Sem novas pistas, o delegado encarregado do caso aguardava as exigências dos seqüestradores...

Josias contou que soube de uns gringos mal-encarados e armados até os dentes que haviam aparecido há uma semana e haviam rodado pelas imediações, provavelmente para se familiarizar com os caminhos.

Soube também que haviam sido vistos numa estrada secundária para o litoral. E, por acaso, um primo de um dos guarda-costas de Josias, que morava no interior, soube que um sítio naquelas bandas havia sido alugado para uns gringos que tinham um helicóptero...


Capítulo 2

O portal dimensional se abriu junto de uma porteira. Estava escuro como breu, mas a visão infravermelha de Jaya podia observar claramente vários homens se movimentando em torno de um helicóptero prestes a decolar. Um deles estava algemado.

– Anael, não vai dar tempo para sutilezas. Tente distraí-los, enquanto eu tento resgatar o tiozinho.

– É pra já! Aqui vai o Virtual Boy!

Ao ver uma espécie de capetinha luminoso esvoaçando sobre suas cabeças, começaram a disparar como doidos, sem perceber que era apenas um holograma.

– Hurry up! We’re under attack!

Eram realmente gringos grandões e fortões, dois negrões e três loiros com o cabelo cortado à escovinha, incluindo aquele que parecia ser o chefe e arrastava o algemado presidente Kalevala – observou Jaya enquanto saltava para cima dele, escudo de força e adaga de luz em punho.

Os caras eram realmente profissionais. Um deles a viu saltando e, sem se abalar, disparou-lhe um tiro certeiro de fuzil por trás, quase à queima-roupa. Acertou nas costas, um pouco acima dos rins. Jaya perdeu o equilíbrio e caiu de cara na lama quase aos pés de Kalevala, jorrando sangue.

– Jaya! Gritou Anael.

– She’s dead. Hurry up!

Mas não estava morta. Novihumanos são mais rijos que o comum dos mortais, principalmente quando são artistas marciais treinados para controlar a dor e os ferimentos. Enquanto os guardas protegiam o helicóptero que decolava, ela se levantou segurando o ferimento, saltou para cima do telhado e de lá conseguiu saltar para o helicóptero em pleno vôo, agarrando-se nas rodas.

Com um golpe da adaga de luz, arrombou a porta do helicóptero e invadiu a cabine. O gringo que levava Kalevala preso, puxou uma automática, mas a adaga foi mais rápida. Cortou a arma e a corrente da algema com dois golpes e puxou o grandão para fora do helicóptero, para cair num laguinho vinte metros abaixo. Quebrou o queixo do aturdido piloto e o mandou fazer companhia a seu chefe.

O confuso Kalevala, agora agarrado àquela estranha figura, cheia de lodo, sangue e raiva, que tentava controlar as piruetas de um helicóptero enlouquecido e sem uma porta, perguntava-se se poderia cair numa encrenca ainda maior quando, de repente, um garoto de branco apareceu ao seu lado.

– Jaya, você está bem?

– Não exatamente. Uma bala de M16 não é o que há de melhor para a saúde, mas acho que vou escapar. Já estou sentindo aquele formigamento da cicatrização. E você, senhor presidente?

– Quem... quem são vocês?

– Depois explicamos. Quem eram aqueles sujeitos?

– Mercenários! Pelo que pude perceber, são ex-marines contratados por uma  companhia petrolífera para dar apoio a um golpe de Estado no meu país!

– Golpe? Mas disseram que iam pedir dinheiro!?

– Deve ter sido para despistar. O que queriam era levar-me a um navio que espera perto da costa e ali arrancar-me toda informação que lhes pudesse ser útil e, se possível, uma carta de renúncia... Disseram-me que já controlam o país.

– Será? Anael, consegue pegar alguma coisa de Pala?

– Sim, na tevê de lá um tal de general Kuribon acusa o presidente Kalevala de ter tentado roubar o tesouro do país e de agora estar simulando o seqüestro para fugir. Diz que assumiu o governo em nome da Federação da Indústria e do Comércio e que vai conceder os direitos de exploração do petróleo de Pala à New Texan Oil e abrir o caminho a um brilhante futuro de verdadeira prosperidade...

– Estou vendo. Anael, precisamos chegar lá e já! – disse Jaya.

– Tem certeza que não quer ir para a base, primeiro? Seria bom fazer um curativo!

– Não, já vai cicatrizar – levantou a camiseta ensangüentada para mostrar que a ferida, ainda bem visível, já havia parado de sangrar e estava fechando.

– Tudo bem, espere um minuto enquanto preparo as coordenadas... Tailândia, Malásia, Indonésia, ah, achei, aqui está! Pala, lá vamos nós!

Um portal brilhante se abriu na frente do helicóptero e Jaya o dirigiu diretamente para dentro, mergulhando numa velocidade cegante dentro do que parecia ser um túnel brilhante e multicolorido.

Segundos depois, estavam sobrevoando a capital de Pala sob um brilhante sol da tarde. Kalevala não conseguia entender bem como um helicóptero todo estropiado havia feito quase vinte mil quilômetros em segundos, mas agora não era hora de fazer perguntas.

Tanques de guerra bloqueavam a avenida principal e soldados se entrincheiravam em volta do palácio do governo. Ouviam-se tiros nas ruas periféricas. Seu país estava em perigo e ele precisava decidir já o que fazer.

Agora, também Jaya podia ouvir as transmissões.

– Presidente, o general Kuribon está dizendo ao povo para permanecer calmo e aguardar os próximos comunicados do novo governo.

– A tevê é fundamental e seu proprietário deve estar apoiando o golpe. Os palenses nunca enfrentaram essa situação antes, devem estar confusos e desorientados. Conheço vários comandantes militares que certamente estão dispostos a reagir contra o golpe, mas foram apanhados de surpresa e têm dificuldades para agir por conta própria. Se pudéssemos tomar o controle da emissora... É aquele prédio perto da praia, com um heliporto no alto. O estúdio fica no penúltimo andar.

– É pra já.

Jaya deu um jeito de pousar aquele helicóptero avariado enquanto segurava o presidente com uma das mãos. 


Capítulo 3

 

Ao ouvir o inesperado pouso do helicóptero, dois soldados saíram para o pátio do heliporto para ver o que havia. Havia uma criatura coberta de lodo verde, aparentemente perigosa com sua espada flamejante e sua pistola cor-de-rosa, um garoto com óculos estilo Matrix® e smoking branco e o Presidente Kalevala, que supostamente havia renunciado e estava escondido em algum canto do Brasil.

Em vez de atirar, ficaram parados, boquiabertos. Jaya, que não estava para arriscar mais brincadeiras com fuzis, disparou a teia e os deixou amarrados. Dois seguranças armados dispararam instintivamente, mas ela foi mais rápida: saltou por cima de suas cabeças e os alvejou por trás, grudando-os na parede.

O Presidente chegou em seguida, acalmando os apavorados técnicos do estúdio:

– Calma, não vamos lhes fazer mal algum. É apenas o seu presidente que quer falar ao povo.

– Mas... como? O que houve? Sua excelência não estava no Brasil?

– É uma história complicada, que prefiro explicar depois. O importante agora é contar a verdade ao povo. É hora de acabar com as mentiras do general Kuribon. Por favor, coloquem-me no ar!

– Perdão... o doutor Roberto Surimavo, o dono da TV Pala, apóia o general... nos deu ordens... – gaguejou um apavorado cinegrafista.

– Deixa de ser covarde, ô banana – disse outro – não vê que ele é o nosso presidente, que ele vai ajudar a nos livrar desse general maluco?

– Mais tarde acertarei as contas com o senhor Surimavo – disse o presidente – e vocês não vão se arrepender de lutar pela democracia, podem ficar tranqüilos quanto a isso. Mas agora, preciso falar.

– Pode contar conosco, presidente! Coloque-se deste lado, olhando para cá, eu mesmo vou cortar o sinal do general e operar a câmara. Um, dois, três, no ar!

De repente, dois milhões de habitantes de Pala grudados no televisor viram o longo discurso de posse do general ser subitamente interrompido para uma fala do  presidente supostamente deposto.

Presidente Kalevala– Povo de Pala! Companheiras e companheiros! Sou o presidente que escolheram, Tomé Kalevala e vos estou falando do estúdio da TV Pala, retomado graças a cidadãos leais. Todos nós estamos sendo vítimas de uma conspiração mentirosa de um general e um punhado de piratas que só quer nos arrancar nossa liberdade, nossa paz e nossas riquezas! Militares leais ao povo! É hora de declarar sua fé na democracia! Gente de nossa ilha! Recusemo-nos a obedecer a esse general fantoche e afirmemos nossa liberdade...

Enquanto falava, Jaya, vigiando os arredores, viu um tanque aproximar-se, esmagando carros estacionados junto à calçada e começando a girar o seu canhão. Não era preciso tentar interceptar a transmissão dos militares: era claro que o general havia dado ordem para disparar contra a emissora.

A teia não ia funcionar contra um canhão daquele tamanho e estava muito longe para saltar e alcançá-lo com a espada. Era preciso uma solução mais drástica.

O presidente e o cinegrafista estavam concentrados demais para perceber o que estava acontecendo, mas o outro técnico ficou de boca aberta, sem entender como se tirava um cano de dois metros de uma mochila de quarenta centímetros. Pois Jaya só conseguiu pensar numa coisa simples e rápida o suficiente para resolver o problema a tempo: uma bazuca.

Os nano-robôs a sintetizaram em vinte segundos. Jaya levou meio segundo para apontar. O artilheiro do tanque teria levado vinte e dois para disparar se o micromíssil hipersônico da Terra 1 não tivesse levado menos de meio segundo para voar da janela até a boca do canhão, a três quarteirões.

A explosão foi um susto para quem estava no estúdio, mas a mensagem já havia sido passada. O povo começou a sair de suas casas, descer os morros, jogar pedras e garrafas do alto dos apartamentos sobre os blindados nas ruas.

Anael conseguiu sintonizar e decodificar as freqüências militares:

– Presidente, outras bases militares atenderam a seu chamado. Estão preparando suas tropas para ir para a rua.

– Você também pode transmitir para eles, Anael? – perguntou Kalevala.

– É só falar! – e materializou um microfone virtual na mão.

Kalevala comunicou-se com os militares legalistas e articulou o contra-golpe. Em minutos, aviões da Força Aérea sobrevoavam ameaçadoramente os tanques dos golpistas, uma fragata se posicionava em frente ao palácio e os soldados fiéis ao presidente cercavam a zona central.

Quinze minutos depois, uma rápida negociação e os golpistas se renderam. O general Kuribon desceu a rampa e entrou no camburão, encerrando o governo mais breve da história de Pala: exatamente vinte e nove minutos. O presidente Kalevala estava de volta.

– Jaya, você nos ajudou a salvar a nossa democracia sem ser preciso derramar sangue...

– Só o dela... – disse Anael.

– Peça o que quiser – disse o presidente.

– Jóia. Que tal um banho bom e quentinho? Estou imunda e morta de cansada!

Foi um banho de hora e meia na banheira de hidromassagem do palácio, com muita espuma. Jaya ia sintetizar uma roupa nova da mochila, mas quando saiu da banheira viu que as criadas haviam deixado para ela um sarongue de seda novinho e achou que seria uma desfeita deixar de usá-lo.

Depois, um banquete em que Jaya, para surpresa do cozinheiro do palácio, devorou onze pratos cheios das mais típicas iguarias de Pala: salada picante, carne assada com creme de coco na folha de bananeira, macarrão de arroz com camarão e shoyu, porco assado no forno de terra com raiz de taro e batata-doce, pastéis de mel recheados com amendoim, passas e açúcar...

Anael ficou só olhando. Novihumanos conseguem gastar um bocado de energia num dia, mas podem repô-la com a mesma rapidez. Só hologramas podem viver de brisa.

Quando acabou o banquete, o presidente Kalevala tinha uma porção de perguntas a fazer. Mas Jaya pediu licença, foi ao banheiro e não voltou. Depois de quinze minutos, uma criada foi bater na porta e viu que não estava trancada. Abriu. Havia só uma janela muito pequena para passar alguém, mas Jaya tinha desaparecido e deixado um bilhete.

Enquanto isso, na base secreta no interior de Anael, a quarenta mil quilômetros da Terra 2...

– Que você achou de tudo isso, Anael?

– Como assim? Achei um barato! Nós nos saímos muito bem para nossa primeira missão, não acha?

– Médio. Preciso estar melhor preparada para a próxima vez. Talvez o próximo me acerte com algo mais pesado que um fuzilzinho à toa... Mas não é isso que eu queria dizer. Você não acha que aí tinha algo mais do que um punhado de gringos gananciosos e um general metido a besta?

– Como assim? Por quê?

– Todo o golpe foi sincronizado com muita precisão, até demais. O general agiu como se tivesse absoluta certeza do que estava acontecendo no Brasil, a milhares de quilômetros dali.

– Bem, isso não é tão estranho. A Terra 2 está bem atrasada, mas já tem meios de comunicação globais.

– Até aí era só intuição, mas não é só isso. Pesquisei nos bancos de dados das Terras 1 e 2 sobre a tal New Texan Oil. Foi comprada há três meses, por um tal Mr. Walker G. Tuft. Esse cara surgiu literalmente do nada. 

– Como, do nada?

– Há quatro meses, não havia um só registro dele. Nem na câmara de comércio do Texas, nem na de qualquer parte do mundo. Nem em qualquer agência bancária. Nem em hotéis, nem em hospitais, nem em parte alguma. Apareceu de repente e de um dia para o outro tinha comprado várias companhias de bilhões de dólares, incluindo a New Texan, uma empresa de software, uma rede de TV norte-americana e um provedor de Internet.

– Ué? E os jornais e os sócios dessas empresas, não quiseram saber quem era ele?

– Isso é o mais estranho. Todos os jornais publicaram a mesma coisa, um press release divulgado pelo próprio Tuft sobre sua biografia, junto com um monte de matérias pagas por suas companhias. Até onde consegui checar, é tudo mentira, da primeira à última palavra. E alguns sócios, que se opuseram à venda, morreram de repente, um de infarto, outro de uma queda de avião, um terceiro baleado por um desconhecido, um quarto atropelado...

– Agora entendi. Quer dizer que temos caça grossa.

– Pois é. Nesse angu tem dedo de Trantor, pode apostar. Vamos ter que dar um passeio nos States e passar essa história a limpo. Mas não agora, uaaah... tenho que dormir um pouco. À tarde preciso ir à faculdade. Pra casa e pra cama, Anael.

 

Fim